Eu perco o chão,
ele me some.
Tragado para dentro
da terra
que não tem dono
nem nome;
apenas um vitral, que lá tudo move:
“sê bem-vindo aquele que sofre”.
Em vão apalpei
o sonho;
ele, tão etéreo, efêmero,
mescla:
realidade, delírio,
paixão e fome.
Logo me homizio
no escuro
em tributo ao íntimo
revolto
e principio, ao pranto,
o culto.
Estando assim
distante
viro-me à Justiça
atirando-lhe
em fel e rancor
o amante.
Este que baixo vibra,
sente e cala
despertando, pelo desgosto,
a escuridão que nega
a tristeza que berra e a voz
apertada, que balbucia, não fala.
Devora em si a métrica,
o conceito, a poesia...
e, assim, minh’alma
se prostra ajoelhada
embarrada, olhando
para trás, vazia.
É porque o chão
em que fui tragado
cospe-me, nu,
à apreciação da Terra;
presto, tapo-me, encabulado,
sentindo-me julgado.
Dito: “engula-me, novamente,
ou mantenha-me enjaulado!
“aprenda, vida,
a ser gentil!
“nunca mais desperte
em meu peito
“a desrazão
do ferido brio.
“O qual almeja o que não tem
e pede o impossível;
“do irresistível, sente,
apenas, o cheiro –
“incitando tão-só vontade
naquele que foi destinado
“a ser só;
obrigando-o a acreditar
“que isto, em si,
é vantagem.
“Tenha, oh vida,
dó.”
Autor: Eduardo Barcellos.