terça-feira, 30 de abril de 2013

Soneto ao inverno

 

 

Inverno, doce inverno das manhãs
Translúcidas, tardias e distantes
Propício ao sentimento das irmãs
E ao mistério da carne das amantes:

Quem és, que transfiguras as maçãs
Em iluminações dessemelhantes
E enlouqueces as rosas temporãs
Rosa-dos-ventos, rosa dos instantes?

Por que ruflaste as tremulantes asas
Alma do céu? o amor das coisas várias
Fez-te migrar - inverno sobre casas!

Anjo tutelar das luminárias
Preservador de santas e de estrelas...
Que importa a noite lúgubre escondê-las?

Londres, 1939.

 

Autor: Vinicius de Moraes.
Fonte: viniciusdemoraes.com.br.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Cânticos da Escuridão: o arado

 

 

Eu perco o chão, 
ele me some.

Tragado para dentro
da terra

que não tem dono
nem nome;

apenas um vitral, que lá tudo move:
“sê bem-vindo aquele que sofre”.

Em vão apalpei
o sonho;

ele, tão etéreo, efêmero,
mescla:

realidade, delírio,
paixão e fome.

Logo me homizio
no escuro

em tributo ao íntimo
revolto

e principio, ao pranto, 
o culto.

Estando assim
distante

viro-me à Justiça
atirando-lhe

em fel e rancor
o amante.

Este que baixo vibra,
sente e cala

despertando, pelo desgosto,
a escuridão que nega

a tristeza que berra e a voz
apertada, que balbucia, não fala.

Devora em si a métrica,
o conceito, a poesia...

e, assim, minh’alma
se prostra ajoelhada

embarrada, olhando
para trás, vazia.

É porque o chão
em que fui tragado

cospe-me, nu,
à apreciação da Terra;

presto, tapo-me, encabulado,
sentindo-me julgado.

Dito: “engula-me, novamente,
ou mantenha-me enjaulado!

“aprenda, vida,
a ser gentil!

“nunca mais desperte
em meu peito

“a desrazão
do ferido brio.

“O qual almeja o que não tem
e pede o impossível;

“do irresistível, sente,
apenas, o cheiro – 

“incitando tão-só vontade
naquele que foi destinado

“a ser só;
obrigando-o a acreditar

“que isto, em si,
é vantagem.

“Tenha, oh vida,
dó.”

 

Autor: Eduardo Barcellos.